A Renovação do Rap Nacional conquistando seu espaço.


EXPANSÃO No início dos anos 2000, mesmo que negligenciado pelas grandes gravadoras, o rap se mantém como a música que falava mais diretamente aos jovens e não apenas aos da periferia. Um novo momento para o estilo e as marcas deixadas pelos trabalhos anteriores ainda reverberavam, como parte da identidade do que viria a seguir.
Rap é compromisso, do paulistano Sabotage, foi lançado em 2001 pelo selo Cosa Nostra, de propriedade do Racionais, e chegou com novas (e importantes) lições para o estilo. As letras falavam da periferia, da questão dos negros no país, mas Sabotage acrescentava uma certa leveza à sua forma de contar as histórias, ainda que ela permanecesse inegavelmente contundente e com liberdade criativa poucas vezes vista no contexto do rap nacional. Na faixa-título, o rapper canta: “Tumultuada está até demais a minha quebrada, tem um mano que vai levando, se criando sem falha, não deixa rastro, segue só no sapatinho, conosco é mais embaixo, bola logo esse fininho, bola logo esse fininho e vê se fuma até umas horas, sem miséria, meu verdinho.”
Mesmo com um período curto de carreira, o artista estabeleceu diálogos que permitiram que ele circulasse por outros meios, o que lhe rendeu a participação nos filmes O invasor (no qual assinou a trilha e ainda atuou ao lado do ex-Titãs Paulo Miklos) e Carandiru, além de parcerias com artistas como Bnegão, Sepultura e Charlie Brown Jr. Tudo isso até sua história ser prematuramente interrompida em 24 de janeiro de 2003, aos 29 anos. Após o bum do Sobrevivendo no inferno, Rap é compromisso representou outro momento singular do rap brasileiro. A leveza musical, a circulação do gênero por meios distintos do hip-hop e o diálogo com outros ritmos deixou claro que não há limites para os caminhos a serem trilhados pelo estilo. Sabotage, tanto pela trajetória quanto pela forma trágica e abrupta com que teve sua carreira interrompida, tornou-se possivelmente um dos maiores símbolos do rap no Brasil, ao lado do Racionais.


O cenário que se desenvolve a partir de então apresenta um leque amplo de linguagens e abre a percepção do público, da imprensa e dos próprios artistas sobre o rap. Inevitavelmente, o Racionais (que é sempre a espinha dorsal da produção brasileira, dada a relevância do grupo), ao lançar Nada como um dia após o outro dia, em 2002, retrata a possibilidade de crescimento e ascensão social do negro no Brasil, refletindo um país em processo de mudança.
Negro drama, Jesus chorou e Vida loka se tornam clássicos imediatos neste que é, possivelmente, o melhor disco da carreira do grupo até então. Negro drama, em particular, é um hino da luta de superação de negras e negros no Brasil. A canção exalta a autoestima do negro como meio de resistência, se colocando na contracorrente em um país da cultura do embranquecimento e da perversidade de suas formas de racismo. Brown sabe colocar o dedo nas feridas: “Problema com escola, eu tenho mil, mil fitas. Inacreditável, mas seu filho me imita. No meio de vocês ele é o mais esperto, ginga e fala gíria. Gíria não, dialeto! Esse não é mais seu ó, subiu. Entrei pelo seu rádio, tomei, cê nem viu. Nós é isso ou aquilo. O quê? Cê não dizia? Seu filho quer ser preto, rááá, que ironia”.

MISSÃO Formado no contexto dos duelos verbais entre MCs, Emicida é hoje um dos mais populares rappers do país. Em 2009, lançou em esquema caseiro o seu álbum/mixtape Pra quem já mordeu um cachorro por comida, até que eu cheguei longe..., dando início a uma das mais interessantes e bem-sucedidas trajetórias do hip-hop nacional. Uma das principais faixas, Triunfo, evidencia o compromisso da música do rapper que aprendeu suas rimas ouvindo as gerações anteriores: “Não escolhi fazer rap não, na moral, o rap me escolheu porque eu aguento ser real. Como se faz necessário, tiozão. Uns rimam por ter talento, eu rimo porque eu tenho uma missão. Sou porta-voz de quem nunca foi ouvido. Os esquecidos lembram de mim porque eu lembro dos esquecidos”.

Sucesso de crítica com o CD de estreia, ele lançou em 2011 o álbum Emicídio, trabalho produzido e distribuído já numa época de reconfiguração ou até mesmo falência do modelo tradicional da indústria fonográfica. Com cópias vendidas de mão em mão e a utilização das redes sociais para a divulgação e distribuição, o disco alcançou um público considerável e agradou críticos, figurando em todas as listas de melhores álbuns daquele ano.
No mesmo ano, foi lançado Nó na orelha, trabalho do MC paulistano Criolo, com produção assinada por Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral. O passeio por diferentes ritmos e a abertura para diálogos musicais ainda mais ousados se mantinham coerentes com a postura do rapper, que fala da periferia tal qual Racionais e Sabotage.


O contexto em que Criolo apresentou Nó na orelha era favorável para a repercussão que o álbum teve. A aceitação do rap, já com a assimilação das suas figuras de linguagem bem peculiares, era um fato, assim como a compreensão de que aquela música veio para ficar. Criolo, na época já um MC veterano, surge para o grande público neste contexto em que um artista do rap circular por segmentos diferentes, mantendo o discurso, já não causava estranhamento.
É importante frisar o quanto Sabotage abriu caminhos. Sem ele, é quase inimaginável ver rappers caminhando com tranquilidade e desenvoltura por outros segmentos e flertando com o mainstrean sem necessariamente alterar seus conteúdos para tanto. Essa é possivelmente uma das principais lições do Poeta do Canão, como ele era chamado, de que é possível caminhar por todos esses lugares, e ainda fazendo do rap um compromisso.


O atual contexto do rap no Brasil conta com uma infinidade de artistas, com inúmeras produções que imprimem suas próprias identidades. O rap nacional bebe de muitas fontes, mas, principalmente, busca referência na sua própria construção e os passos anteriores foram fundamentais para que ele se tornasse o que é hoje, para além de música, o rap representou e representa grandes transformações.


Fonte: https://www.uai.com.br/app/noticia/musica/2018/01/26/noticias-musica,220609/rap-nacional-conquista-cada-vez-mais-espaco-e-mostra-sua-capacidade.shtml

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